"Onde 'isso' estava, Eu devo advir" - Sigmund Freud
16 de fevereiro de 2013
31 de janeiro de 2013
Um sonho analisado por mim - exemplo do sentido dos sonhos
Tive esse sonho alguns meses atrás, quando frequentava costumeiramente uma clínica por ocasião de um problema que tive. Me surpreendi com sua interpretação, pois neste caso obtive uma prova quase que inequívoca da sua validade. O leitor poderá achá-lo muito interessante se não conhece as descobertas de Sigmund Freud sobre a função e mecanismos dos sonhos:
"...eu estava num posto de gasolina e o frentista - um rapaz negro - havia acabado de colocar a gasolina no tanque do carro. Fiz o pagamento - não lembro o valor - e fiquei aguardando o troco. Comecei a ficar irritado, pois achava que o frentista estava me enrolando para poder ficar com o troco. Achei que ele poderia pensar que como eu tinha mais dinheiro do que precisava para pagar a gasolina, então ele estaria no direito de ficar com o resto para ele. Depois de exigir meu troco imperativamente ele desistiu de sua intenção (pois percebeu que eu não ia deixar o assunto de lado), e passou a me dar o troco. Mas o fez por meio de notas de cinco. Ele me dava cinco reais e aguardava para ver se eu ficava satisfeito e ia embora, e assim ele poderia ficar com o resto do troco. Então me dava cinco, eu ficava olhando para a cara dele esperando, e então me dava mais cinco... Sabia que tinha feito o pagamento em notas altas, de vinte, então exigia que ele me desse o troco da mesma forma, que não ficasse me enrolando...a coisa chegou a tal ponto que perdi a paciência e parti para cima do frentista para agredí-lo com muita raiva...No final do sonho o rapaz já havia sido misteriosamente substituído por uma mulher, também negra". A impressão que tive no momento que acordei foi de espanto pela minha agressividade, e o primeiro pensamento que tive foi 'cara, você estava como muita raiva daquele frentista mesmo'.
Toda a interpretação do sonho só foi possível graças a uma lembrança que
chegou até a mim sobre o dia anterior. Primeiramente, de forma
indistinta, sabia que era algo que dizia respeito a esse sonho num livro
que estivera lendo na noite anterior, pouco antes de dormir - mas não
sabia o quê. Então fui na gaveta, peguei o livro (A linha de sombra -
Joseph Conrad), e comecei a folheá-lo retrospectivamente. Voltando umas
cinco páginas do ponto onde havia parado, encontrei a seguinte
afirmação, logo perto do final da página: "A humanidade que inventou o
provérbio 'tempo é dinheiro' há de compreender minha irritação". A partir de então pude me certificar de que a interpretação do sonho estava correta.
Não lembro ao certo o caminho que percorri até chegar a presente interpretação do sonho, mas de qualquer forma tal foi o resultado:
Como mencionei antes, estava frequentando assiduamente uma clínica por ocasião de uma lesão que havia sofrido. Uma vez cheguei na clínica e fui direto ao balcão falar com a recepcionista - ou balconista, tanto faz. Recepcionistas e balconistas ficam geralmente na "frente" de determinados estabelecimentos - ou seja, são "frentistas". Mas ela simplesmente levantou a mão e me mandou aguardar - era uma garota jovem, branca, cabelos loiros e um pouco gordinha (jamais esquecerei seu rosto). Eu, educamente, o fiz, pois achei que ela deveria estar muito atarefada. Passados por volta de cinco minutos voltei a me dirigir a ela, mas recebi a resposta incisiva "aguarde que te chamo". Achei que ela logo iria me chamar. Não foi o caso... Passados algo em torno de vinte minutos voltei a me dirigir ao balcão e perguntei a outra moça porque ainda não havia sido chamado pela recepcionista, ao passo que ela respondeu: "como ela vai te chamar se você não entregou sua carterinha? Acha que ela é vidente é?" Cara, eu fiquei muito puto com isso... Mas claro, como sempre, permaneci contido. A contenção da minha raiva levou-a a se manifestar no sonho, como uma válvula de escape, semanas após o ocorrido. A grande lei exposta por Freud no livro "A Interpretação dos sonhos" de 1900, é que todo sonho é a realização de um desejo suprimido. O presente caso em nada difere disso. No dia da clínica eu sabia que deveria entregar a carteirinha para ser liberada a consulta, justamente por isso estava aguardando a minha solicitação por parte da recepcionista, para entregar-lhe a carteirinha do convênio.
Segundo Freud os sonhos seriam pensamentos expressados por imagens, e os pensamentos que estavam sendo representados no meu sonho eram estes: "Dei toda a minha paciência e compreensão à moça da recepção - ou seja, dei a ela 'notas altas de vinte'. Mas ela insistia em retribuir minha educação com ignorância e menosprezo, mandando toda vez eu aguardar um pouco ('cinco minutinhos'), devolvendo apenas 'notas de cinco'. A intenção dela era não ser incomodada com mais trabalho, ter mais tempo para si, ou seja, 'ficar com o troco'".
Como mencionei anteriormente, a chave para a interpretação desse sonho foi o ditado "tempo é dinheiro". O fato de tê-lo encontrado no livro que eu estivera lendo na noite anterior ao sonho forneceu uma prova quase que inconteste. Os sonhos se expressam por meio de uma linguagem simbólica, e o meu sonho simplesmente representou o significante 'tempo' por 'dinheiro', em conformidade com o ditado. Esse mecanismo da distorção onírica teve sua função explicitada por Freud. Como o material reprimido gera desprazer - e justamente por esse motivo que ele foi reprimido - é necessário que se façam algumas alterações nesse material para que ele novamente tenha acesso à consciência. O sonho manifesto - que seria o sonho tal como o vemos - seria o resultado do processo de elaboração secundária dos pensamentos oníricos latentes que foram suprimidos da consciência de vigília.
Como mencionei anteriormente, a chave para a interpretação desse sonho foi o ditado "tempo é dinheiro". O fato de tê-lo encontrado no livro que eu estivera lendo na noite anterior ao sonho forneceu uma prova quase que inconteste. Os sonhos se expressam por meio de uma linguagem simbólica, e o meu sonho simplesmente representou o significante 'tempo' por 'dinheiro', em conformidade com o ditado. Esse mecanismo da distorção onírica teve sua função explicitada por Freud. Como o material reprimido gera desprazer - e justamente por esse motivo que ele foi reprimido - é necessário que se façam algumas alterações nesse material para que ele novamente tenha acesso à consciência. O sonho manifesto - que seria o sonho tal como o vemos - seria o resultado do processo de elaboração secundária dos pensamentos oníricos latentes que foram suprimidos da consciência de vigília.
O que estava em questão nesse sonho era um complexo de "aproveitamento da minha boa vontade". Vale ressaltar que embora o leitor possa ter tido a impressão de que a interpretação deste sonho tenha sido bastante óbvia, devo adverti-lo de que minha impressão ao acordar dele foi a de confusão completa. Até então não fazia a menor idéia do porquê de ter sonhado com um frentista que não queria devolver o meu dinheiro. Foi a técnica psicanalítica da livre associação de idéias que me permitiu obter uma compreensão do sonho.
Observações:
21 de janeiro de 2013
O INCONSCIENTE E OS ATOS FALHOS - O que as pessoas revelam sobre si mesmas quando cometem erros
A suposição de atividade mental inconsciente é o que possibilitou a Freud elaborar toda a teoria psicanalítica. Vários fenômenos o levaram a sustentar a existência do inconsciente. Um deles em particular é bem divertido, pois facilmente observado em nossa vida cotidiana: os atos falhos. A partir do momento que passamos a compreender o real sentido dos atos falhos, podemos ver o modo como o inconsciente de um indivíduo o trai e revela suas reais intenções.
Os atos falhos consistem em pequenos lapsos - esquecimentos de nomes, de horários, datas, coisas a fazer, ou algo dito que não era o que tinha sido intencionado a dizer, erros ao fazer alguma coisa, em suma, todo processo em que ocorre alguma interferência no que foi planejado, na atitude "normal" esperada, por isso o nome ato falho.
Até antes de Freud - na verdade até hoje, para aqueles que desconhecem a psicanálise e querem ocultar o real sentido dos pequenos erros - os atos falhos eram tidos apenas como simples equívocos, algo feito "sem querer", que não tinha maior importância, que não possuíam nenhuma causa e eram atribuídos simplesmente a um "descuido". Freud, por sua vez, pôde mostrar no livro "Sobre a psicopatologia da vida cotidiana" que até os erros mais simples teriam um sentido oculto que teria sido evidenciado de tal forma - no erro.
Num exemplo do livro, um senhor estava conversando com uma jovem sobre como a cidade [Berlim] estava bonita com os preparativos para a Páscoa, e disse: "viu a loja Wertheim? Está toda decotada, oh, quis dizer decorada!". Esse é um exemplo bastante simples, mas é interessante pois comumente as pessoas têm a tendência a atribuir um erro como esse simplesmente ao acaso, e não procuram investigar o que o ocasionou. O locutor diria "oh, quis dizer decorada!" e a coisa ficaria por aí mesmo. A outra pessoa da conversa geralmente tende a não dar atenção ao ato falho. Já Freud interpreta esse pequeno erro como uma interferência de um pensamento inconsciente do senhor a respeito do decote da roupa da jovem senhora. Em todos os casos analisados, Freud consegue mostrar que os atos falhos, dos mais simples aos mais complexos, são fruto de um processo inconsciente suprimido e que sua causa pode ser descoberta.
Outro exemplo do livro: um professor de medicina, conhecido por sua arrogância, dá uma aula sobre cavidades nasais. Depois de perguntar se todos os alunos entenderam recebe um 'sim' geral. Diz então que esse assunto é muito difícil e que duvidava da compreensão deles. Afirma que 'mesmo em Viena, com seus milhões de habitantes, os que entendem das cavidades nasais podem ser contados num dedo, quero dizer, nos dedos das mãos'. O inconsciente do prof. o traiu aqui - no fundo de si, de todos os médicos da cidade ele acredita ser o único a saber sobre o assunto.
Já vemos nesses pequenos exemplos o que provoca a irrupção do ato falho. Por razões sociais, sabemos que não podemos dizer tudo o que temos vontade, e apesar de nosso controle para segurar e suprimir o que realmente queremos dizer, o pensamento ainda resiste com notável força no inconsciente para se fazer ouvir no ato falho. De fato, alguns atos falhos dizem respeito somente a conteúdos que são significativos para quem os comete. Estes não são assim tão facilmente explicados nem prontamente reconhecidos por quem os comete, e geralmente são dotados de alto valor afetivo.
Portanto, pode-se ter em mente que quase todo erro cometido tem um significado oculto. Digo quase todo porque às vezes erros são fruto do alto investimento psíquico em outros fatores - por exemplo, alguém extremamente preocupado com uma reunião de negócios pode vir a esquecer de pegar a filha no colégio. Esse erro não seria inconscientemente motivado, mas fruto da preocupação com algo. De qualquer forma, existem em bem menor quantidade.
Uma vez certa paciente minha, bem resistente ao tratamento, mandou-me uma mensagem desculpando-se por ter que remarcar novamente a sessão, e escreveu: "Por favor, me pergunte, estou angustiada". Num primeiro momento não entendi, mas depois vi que a intenção dela era dizer "por favor, me perdoe, estou angustiada". A interpretação desse ato falho foi bastante óbvia.
Noutro exemplo - esse foi particularmente engraçado - ouvi uma garota certa vez numa lanchonete pedir um suco de "capuaçu" à garçonete enquanto estava em companhia do que pareciam ser seus pais. Podemos bem entender que o decoro exerceu sua influência sobre este lapso, impossibilitando a menção a uma palavra tão vulgar na frente dos mais velhos.
A lista aqui poderia ser bem vasta, principalmente para quem gosta de colecionar esses fenômenos na memória, que são uma verdadeira prova da existência de atividade mental inconsciente. Vou agora rever o texto para ver se cometi algum erro... Pretendo trazer mais alguns exemplos de atos falhos depois.
17 de dezembro de 2012
A descrição da angústia em Maupassant - trabalho apresentado por mim na XXXII Jornada de Psicanálise do IFOL
A
descrição da angústia em Maupassant
Até
hoje não vimos na literatura algo que se assemelhe ao que nos é proporcionado
por Guy de Maupassant, no que diz respeito ao tema da angústia. Nas obras
literárias clássicas – desde o Inferno
de Dante à Metamorfose de Kafka,
passando pelo Fausto de Goethe –
vemos a angústia abordada de uma forma atenuada. Já nas obras de Maupassant que
iremos tratar aqui, o elemento da angústia aparece-nos de uma forma pura, direta
– quase poderíamos dizer que se trata de uma “descrição da angústia”.
As
três obras do autor de que iremos nos valer aqui são: Carta de um Louco, O Horla
(primeira versão) e O Horla (segunda
versão). Estes três contos narram uma mesma situação – como pode ver qualquer
um que lance rápido olhar sobre eles – que temos razões para acreditar que foi vivenciada
pelo próprio autor.
Antes
de começarmos, acreditamos ser pertinente mencionar alguns dados biográficos do
autor, não como uma justificativa, mas para nos situarmos melhor – pois em Escritores Criativos e Devaneios Freud
deixou claro como as fantasias inconscientes do autor se prestam como conteúdo
para a construção de sua obra.
Maupassant
nasceu em 5 de agosto de 1850. Em vida foi um amante da natureza, e em seu
tempo livre gostava de passear de barco pelo rio Sena. Em junho e agosto de
1891, com 41 anos, deu início a tratamentos sucessivos em casas de saúde. No
dia 2 de janeiro de 1892 tentou o suicídio. Em 7 de janeiro foi internado por
amigos no manicômio de Passy, na França. Lá permaneceu até o dia da sua morte,
em 6 de julho de 1893.
Nos
três contos de Maupassant, o personagem principal, que é narrador da história,
relata que é tomado por uma estranha inquietação que o leva a se questionar se
de fato não estaria ficando louco. Vemos na segunda versão do Horla: “25 de maio – O meu estado é realmente estranho. À medida que a
tarde avança, uma inquietação incompreensível me invade [...] Caminho, então,
na sala, de um lado para o outro, sob a opressão de um medo confuso e
irresistível, o medo do sono e o medo da cama” (MAUPASSANT, 1997, p. 88). É uma
espécie de pressentimento horrível “de um perigo iminente”, como a “apreensão
de uma desgraça que está para chegar ou da morte que se aproxima” (MAUPASSANT,
1997, p. 87). Essa inquietação nervosa o mantém “acordado durante noites inteiras,
uma superexcitação tal que o menor ruído me provocava sobressaltos. Meu humor
tornou-se azedo. Tinha cóleras súbitas e inexplicáveis” (MAUPASSANT, 1997, p.
75).
Sua
sensação de mal-estar em grande parte estava ligada ao sono, como mostra: “deito-me
e espero o sono como esperaria o carrasco. Espero-o com o terror da sua vinda e
o meu coração bate, e as minhas pernas tremem, e todo o meu corpo estremece no
calor das cobertas” (MAUPASSANT, p. 88). Na primeira versão do Horla constata que “Logo, com efeito,
recomecei a dormir, mas com um sono ainda mais terrível do que a insônia. Mal
me deitava, fechava os olhos e desaparecia. Sim, caía no nada, no nada
absoluto, numa morte de todo o ser da qual era bruscamente, horrivelmente,
arrancado pela horrível sensação de um peso esmagador sobre meu peito e de uma
boca sobre a minha, que bebia a minha vida por entre os lábios [...] esses
sobressaltos, não conheço nada de mais horrível”. (MAUPASSANT, 1997, p. 75).
A
relação entre o desejo e a angústica também fica clara em Maupassant, onde,
logo após momentos de satisfação por se achar em contato com a natureza, se
seguem sensações angustiantes, como é expresso pelo narrador: “12 de maio – De onde vêm essas
influências misteriosas que transformam em desânimo a nossa felicidade e a
nossa confiança em angústia? Acordo cheio de alegria, com desejos de cantar
[...] Desço até a margem do rio; e, de súbito, após um curto passeio, regresso
desolado como se alguma desgraça me esperasse em casa. – Por quê?” (MAUPASSANT,
1997, p. 86). “7 de agosto – seguia
pela margem. O sol cobria de claridade o rio, tornava a terra deliciosa, enchia
o meu olhar de amor à vida, às andorinhas, cuja agilidade é uma alegria para os
meus olhos, às ervas da margem, cujo murmúrio é uma felicidade para os meus
ouvidos. Pouco a pouco, no entanto, um mal-estar inexplicável me invadia.
Parecia-me que uma força, uma força oculta me entorpecia, me paralisava, me
impedia de avançar, me puxava para trás. [...] Voltei, então, contra a minha
vontade, certo de que ia encontrar em casa uma notícia má, uma carta ou um
telegrama. Não havia nada.” (MAUPASSANT, 1997, p. 106).
Após
nitidamente constatar que o mal-estar do qual era alvo tinha origem nele
próprio, o narrador afirma que a motivação para seu estado estaria num
pressentimento de algo que está prestes a ocorrer – como uma notícia sobre o “agravamento de uma
enfermidade” ou mesmo morte de um ente querido – não mais com sua pessoa, e sim
no mundo à sua volta. Isso nos remete ao modo de pensar animista que, em geral,
consiste em deslocar no mundo externo produtos da própria atividade psíquica
como se estes lhe fossem inerentes, sem que se haja uma clara consciência
disso.
Freud,
com efeito, mostra que há um grande resquício dessa atividade mental animista
primitiva presente na vida dos neuróticos, especialmente nos obsessivos. Isso
seria em grande parte possibilitado pela repressão que tornaria os processos de
pensamento nesses indivíduos altamente sexualizados. Os processos animistas
seriam identificáveis sob as diversas formas das superstições, mitos, magias,
crença nos espíritos, em suma, toda forma de atividade mental que evidenciaria
um poder superestimado em relação à realidade externa – uma “onipotência dos pensamentos”.
Isso porque, segundo Freud, tais crenças surgem “no terreno do ilimitado amor a
si próprio”, resultado de um narcisismo primário, regulado por um outro
princípio que não o de realidade.
Esse
modo animista de funcionamento é evidente ainda no texto de Maupassant quando o
personagem afirma que é perseguido por um Ser, o Invisível, a quem ele o
batizou de Horla, termo que, apesar de inexistente na lígua francesa, poderia
ser compreendido como a junção das sílabas Hors e là, podendo então ser traduzido
como o “do Além” ou o “de Lá”: “fiquei certo, certo como do dia e da noite, de
que existia perto de mim um ser invisível que me perseguia, que me deixara e
que agora retornava”. (MAUPASSANT, 1997, p. 78). “O Ser! Como o chamarei? O
Invisível. Não, isso não basta. Batizei-o de Horla. Por quê? Não sei. E o Horla
não me deixava mais” (MAUPASSANT, 1997, p. 80).
E
esse Horla possui uma característica peculiar, que seria o poder de controlar a
vontade dos humanos: “esta arma do novo Senhor, o dominío de uma misteriosa
vontade sobre a alma humana escravizada” (MAUPASSANT, 1997, p. 113). E como
pode-se ver, o Horla não se cansa de utilizar essa arma: “13 de agosto – Não tenho mais nenhuma força, nenhuma coragem,
nenhum domínio sobre mim, nenhum poder para pôr em movimento a minha vontade.
Não consigo mais querer; mas alguém quer por mim; e eu obedeço” (MAUPASSANT,
1997, p. 107).
A
explicação psicanalítica para o mal que aflinge o personagem de Maupassant
poderia ser encontrada no artigo de Freud sobre “O Estranho”. O lugar misterioso de onde brotam seus sobressaltos
inexplicáveis é conhecido como o inconsciente, e o efeito inquietante relativo
a eles poderia ser atribuído a um familiar desconhecido, ou seja, ao retorno de
um material que foi submetido ao processo de recalque. Como não há na descrição
do narrador, algo externo que provoca suas sensações angustiantes – a não ser,
como já vimos, aquilo que ele próprio desloca no mundo exterior – o tipo de
inquietante relatado por ele seria proveniente de complexos infantis
reprimidos.
Portanto
podemos compreender o porquê da dificuldade relatada pelo narrador para dormir.
A medida em que se entra no estado de sono a resistência psíquica tende a diminuir,
tornando possível o acesso do material reprimido à consciência. A relação entre
o desejo e a angústia também fica clara, pois o desejo possibilita o reinvestimento
de impulsos incestuosos inconscientes provenientes do Édipo. Para se escapar à
angústia, o próprio desejo é abdicado em nome do Outro, o Horla.
No
artigo do Estranho, Freud alega que o
duplo teria sido “originalmente uma garantia contra o desaparecimento do Eu, um
‘enérgico desmentido ao poder da morte’ [segundo Otto Rank], e a alma imortal
foi provavelmente o primeiro duplo do corpo” (FREUD, 1919, p. 351). Esse duplo
– que teria sua confirmação na linguagem dos sonhos, pois esta tende a
representar a castração através da duplicação de símbolos fálicos – tem seu
sinal invertido após passada uma primeira fase narcisista: “de garantia de
sobrevivência passa a inquietante mensageiro da morte” (FREUD, 1919, p. 351). Na
seção III de Totem e tabu (1913),
sobre o “Animismo, Magia e a Onipotência de Pensamentos”, vemos que através da
criação dos espíritos “O homem primitivo estaria assim submetendo-se à
supremacia da morte pelo mesmo gesto com que pareceria estar negando-a” (FREUD,
1913, p. 103).
No
final da segunda versão do Horla
vemos o seguinte testemunho: “Só o tempo, talvez, tem poder sobre o Ser
Invisível e Temível. Por que então esse corpo transparente, esse corpo
imperceptível, esse corpo de Espírito, se ele também tivesse que temer os
males, os ferimentos, as doenças, a destruição prematura? A destruição
prematura? Todo o terror humano provém dela! Depois do homem, o Horla – após
aquele que pode morrer em qualquer dia, a qualquer hora, a qualquer minuto, por
qualquer acidente, chegou aquele que só deve morrer no seu dia, na sua hora, no
seu minuto, porque atingiu o limite da sua existência! Não [...] ele não morreu
[...] então... vai ser preciso agora que eu me mate!” (MAUPASSANT, 1997, pp.
119-120).
O
Horla foi um artifício engenhosamente criado na fantasia do escritor, e mostra como
se dão os esforços para se lidar com uma angústia implacável. Maupassant morreu
em um hospício aos 43 anos de idade pois foi ineficaz em sua tentativa de
suicídio. Mesmo um escritor talentoso como ele pode se beneficiar de uma
análise, ao trazer à luz o material reprimido de uma forma menos inquietante.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund.
O Inquietante (1919). In: Obras Completas. v. 14. Trad. de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 328-376.
FREUD, Sigmund. Totem
e tabu, 1913. In: ______. O totem e tabu e outros trabalhos. Rio de
Janeiro: Imago, 1996. p. 11-168. (Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, 13).
MAUPASSANT, Guy
de. Contos Fantásticos – O Horla & outras histórias. Porto Alegre:
L&PM, 1997.
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